sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Quando é que o resto do país começou a odiar Lisboa?

Só percebemos a dimensão da coisa quando saímos de Lisboa e, sobretudo, de 'Lesboa': existe uma raiva larvar contra a capital em todas as regiões do país. Sinto isso nos familiares e amigos do Alentejo, Algarve, Braga, Leiria, Trás-os-Montes, Minho e, claro, Loures, Póvoa, Odivelas, Barreiro, terras que, apesar da proximidade, continuam a milhares de quilómetros de 'Lesboa'. De onde vem este ódio? A minha resposta começa com outra pergunta: quando é que começou o centralismo de Lisboa? Quando é que o poder de Lisboa resolveu anular todos os corpos intermédios e regionais da sociedade?  Este livro de Nuno Gonçalo Monteiro dá uma resposta.

Ao longo desta biografia do Marquês de Pombal mascarada de biografia de D. José, percebemos que o Válido Todo-Poderoso mudou para sempre a relação entre Estado e sociedade. Foi com Pombal que o Estado começou a colonizar a sociedade e a impedir que vozes regionais competissem com a voz de Lisboa. Foi com Pombal que a ideia de limitar o poder executivo de Lisboa passou a ser encarada como ilegítima. Foi com Pombal que os corpos tocquevillianos da sociedade (igreja, ordens religiosas, famílias nobres, etc.) passaram à condição de figurantes. No fundo, foi Pombal que transformou o resto do país numa tabula rasa à mercê das engenharias sociais e políticas da capital. E, como se sabe, o Marquês fez questão de usar a violência (contra jesuítas e nobres) para atingir esse nirvana centralista. Em Inglaterra, os aristocratas limitaram sempre o poder de Londres. No Portugal de Pombal e pós-Pombal, os aristocratas perderam esse papel institucional. A diferença explica muita coisa.

Em 1834, os "liberais" portugueses, que nada tinham de liberal, lançaram a maioria revolução legislativa que este país já conheceu. 1834 foi o ano zero de uma espécie de PREC oitocentista.  Com ou sem consciência disso, estes "liberais" eram filhos de uma tradição inaugurada por Pombal. Mais tarde, os republicanos voltam a recuperar a figura do Marquês com muitíssima consciência. Além da questão do centralismo, Afonso Costa e seus muchachos estavam interessados noutra característica do Válido: a aversão à Igreja e, sobretudo, aos jesuítas. Sim, a estátua que está ali na Rotunda é um hino ao ódio, um ódio que diversas encarnações de Lisboa lançaram sobre o resto do país.

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