sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Continuam correndo sozinhos no páreo

Certa vez eu estava conversando com o Jonas Faga. Falávamos sobre o ritmo de impressão monetária dos pacotes de expansão Americano - novidade! O tema é sempre esse! - e, de repente, algo ocorre:

- Mas, Jonas, uma hora isso vai dar merda.

- Vai.

- Os Americanos tornaram o mercado viciado em seu pacote de impressão. Esse fornecimento de liquidez gera inflação, cria dinheiro a partir do nada e, por maiores que sejam a demanda por dólares no mundo, por mais atrelados que sejam os seus contratos de cessão tecnológica, ligações contratuais com a necessidade do mundo em se dolarizar para comprar petróleo da OPEP, uma hora nós veremos a depreciação do dólar. Isso é matemático. Inevitável. O que deve estar segurando isso é a fragilidade - justamente - de todo o resto, em especial do Euro e da comunidade Européia.

- A questão é: Até que ponto os Americanos iriam para defender o seu direito de imprimirem dólares, de expandirem a dívida.

E isso veio como uma bacia d'água sobre a minha cabeça. E é verdade. Tudo na teoria é bonito, nos livros, nos cálculos, na planilha e na nossa tentativa de achar que a realidade segue os esboços dos nosso teoremas; mas não é assim. Quase nunca é assim.

A grande maioria das pessoas acreditam que, de alguma forma, quanto mais você estuda mais conhece sobre algo. Ledo engano! Quanto mais se estuda mais você percebe que todo paradigma é quebrado, que toda conclusão "óbvia e absoluta" sobre determinado tema acaba, mais cedo ou mais tarde, levando aquele que concluiu a uma queda vertiginosa. Hoje, em 2014, quanto mais eu penso sobre o que será do mundo ao longo desse ano, mais certeza eu tenho de que só existe uma única resposta correta: Eu não sei. Não sei e nenhum de nós sabe!

Não conseguimos enxergar o elefante por inteiro. Temos que nos contentar no tato, buscando algumas peças, parte a parte, paciente e repetidas vezes, até que algo comece a se formar em nossas cabeças. E para os próximos 10 anos? Pior ainda!

A lógica pede para que eu diga que a inflação crescerá nos Estados Unidos se o seu ritmo de fornecimento de liquidez não encontrar um freio - se não econômico, ao menos moral, pois a dívida que está sendo deixada para as futuras gerações é enorme. Mas, os Estados Unidos se beneficiam justamente da completa ausência de uma moeda para lhes fazer contra-peso. As opções seriam:

01. O Iene Japonês. Moeda advinda de um país que se encontra em deflação econômica desde 1986. Apesar dos pacotes de estímulo do país, este simplesmente não consegue forçar o seu povo a consumir. Não há aquecimento econômico desde antes do meu nascimento. A população envelhece no ritmo mais assustador do globo. Sua política de empregos e estabilidade engessa o mercado.

02. O Yuane Chinês. Não preciso nem discutir: Apesar da pujança financeira do "continente Chinês", ainda se trata de um país absolutamente fechado, sem democracia instituída, cujas pessoas, acredito eu, não abririam mão de uma moeda que, apesar de todos os seus males inflacionários ainda é livre, para adotarem em seus contratos coeficientes de crença em um Estado que, por decreto, pode nacionalizar tudo e invalidar o resto ou qualquer outro surto histérico totalitário.

03. O Euro. Era a moeda mais forte, sem dúvida, o concorrente de peso para desbancar o dólar. Quem puder ler o estatuto da união Européia estará diante de um dos mais belos documentos econômicos e políticos já feitos. Incentiva-se a livre circulação de bens, de pessoas, do comércio, isenção de taxas, aumento da competitividade, mas, na prática, pouco está sendo colocado pra valer. Quando falamos de comunidade Européia a primeira coisa que lembramos é da palavra: Crise. Bastou meia década de liberdade para tomada de empréstimos a juros Alemães por parte dos países menos responsáveis do grupo para que o estrago fosse feito. A Europa milenar, conhecedora e pivô do nosso legado cultural humanitário, atolou-se de dinheiro a juros baixos e comprou grande parte dos JUNKY BONDS hipotecários Americanos, que tinham certificado de segurança atestado pelo próprio Estado!, mas que não evitaram a quebra em cadeia de toda a comunidade.

O euro claudica, por conta dos seus próprios atos e decisões, mas tenta levantar-se de maneira responsável: Por meio de ajustes fiscais, austeridade, buscando a volta do compasso das contas públicas, mas tem pela frente questões complicadas, como o envelhecimento da população, a completa falta de vontade empreendedora dos seus jovens - os que restam - e a perda da competitividade da sua indústria para os asiáticos. Trata-se da minha aposta mais forte, mas, talvez, só para a próxima década.

Enquanto isso, seguem os Americanos na liderança inequívoca do mundo. Sem ninguém para soprar-lhes os cangotes, continuam imprimindo, produzindo, expandindo e negociando. Seguem como o povo mais produtivo do mundo e nada mais justo que isso se torne reflexo na confiança dos títulos de dívida, para curto e longo prazo, que emitem aos investidores estrangeiros. Os Chineses sabem disso, por isso seguem comprando suas dívidas. Já são os maiores credores do mundo dos Estados Unidos. Já são os maiores credores de quase todo o planeta!

Enquanto não houver qualquer tipo de candidato a altura, seguem os Americanos, ou melhor, o dólar, como representação da segurança e do porto seguro no mundo, apesar de todas as sandices financeiras e repetidas erupções de oferta monetária que promovam a cada virada de ano. Infelizmente, apesar de tudo que o façam, os Americanos - e o dólar - ainda continuam correndo sozinhos no páreo. 
 Ícaro Carvalho
 

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