sexta-feira, 27 de março de 2015

Os presos da democracia

Na noite de 27 para 28 de Setembro de 1974, as 'forças democráticas', receosas de uma inversão de marcha no PREC, decidiram neutralizar os responsáveis dos partidos, dos movimentos políticos e dos jornais da Direita.
Fizeram-no no quadro da aliança Povo-MFA: bandos do PCP e da extrema-esquerda pararam com barricadas os acessos a Lisboa; pela noite, soldados do MFA invadiram as casas dos suspeitos de 'fascistas' e 'reaccionários'. 
A Esquerda temia que a manifestação da maioria silenciosa, em Lisboa, desencadeasse um movimento popular que pudesse parar aquilo em que todas as 'forças democráticas' estavam de acordo: a saída de África e o avanço das 'conquistas revolucionárias'.
Nesse fim-de-semana, Soares e Cunhal estiveram de acordo: era preciso parar a reacção e, para o fazer, valia tudo. Sem qualquer respeito pelos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos e seguindo a 'legalidade revolucionária', procederam à captura de mais de duzentas pessoas.
Prisioneiros de Caxias, de Nuno Alves Caetano e com um lúcido prefácio de Nuno Rogeiro, recorda este episódio através das histórias de alguns desses presos políticos. Conheci, pessoalmente, muitos deles e fui - e graças a Deus sou - amigo de alguns. E conheci bem o episódio, num período negro da História de Portugal, esses meses entre Abril de 74 e Novembro de 75, em que se 'restaurou a liberdade' mas se liquidou o Império e se destruiu o tecido empresarial. E viu-se a Esquerda antifascista no poder sem contrapesos internos. 
Entre os 'presos de Caxias' estavam portugueses de todas as condições, posições e gerações. Como o conde de Caria, o general Kaúlza de Arriaga, o embaixador Alberto Franco Nogueira e alguns ministros de Marcelo Caetano, estavam quadros dos partidos anticomunistas e jornalistas como Manuel Múrias, que escrevia no Bandarra. As listas tinham sido feitas para neutralizar a Direita e embora muitos de nós tivéssemos escapado à prisão, fomos forçados ao exílio e impedidos de lutar, em liberdade, pelos nossos princípios.
A democracia chegou assim e, na boa tradição de 'governo dos democratas', começou por calar e prender 'não-democratas'.
No meio da confusão e arranque do PREC, acolitado por uma imprensa histérica e dócil aos mandados e recados da esquerda radical, que pintava os horrores e detalhes da conspiração fascista, ficava bem claro que não haveria liberdade para os 'inimigos da liberdade'. E eram os antifascistas quem decidia quem era inimigo da liberdade ou fascista. 
Os presos políticos - estes e outros - lá ficaram, e os pais fundadores da democracia não se preocuparam muito com eles. O país começava então uma caminhada que, 40 anos depois, nos trouxe aonde estamos: agora sim, somos um país triste, de soberania reduzida, em que as famílias vão empobrecendo, e as empresas, dos bancos à TAP, vão passando para as mãos dos estrangeiros.
Mas temos a democracia e estamos na Europa. Que mais queremos?

quarta-feira, 25 de março de 2015

Top 10

Por Pedro Arroja 

O jornal USA Today, que é o jornal de maior circulação nos EUA (cerca de dois milhões de exemplares por dia) lançou um inquérito entre os seus leitores para decidir qual o melhor país europeu para visitar e descobrir. A iniciativa teve a colaboração do portal de viagens Top10 e de especialistas da indústria de turismo, que escolheram um universo de 20 países da Europa, entre os quais se efectuou a votação.
O resultado foi o seguinte:
  1. Portugal
  2. Itália
  3. Áustria
  4. Alemanha
  5. Inglaterra
  6. Espanha
  7. Irlanda
  8. França
  9. Islândia
  10. Suíça
O corpo editorial do USA Today parece que nem podia acreditar, e escreveu assim: “Portugal é menos icónico do que outros países mais conhecidos”. Porém, “oferece um vasto leque de oportunidades para os turistas: vilas e aldeias charmosas, comida fantástica, música regional fascinante, descobertas culturais, uma costa marítima belíssima e até surf de classe mundial”. E termina assim: “Portugal conquistou os corações dos nossos leitores e assegurou a fatia de leão dos votos”.
Três países de cultura católica ocupam os três primeiros lugares, sendo a Áustria um enclave católico num meio germânico e predominantemente protestante (a Irlanda desempenha o mesmo papel no Reino Unido).
O que é que os países católicos têm de especial e que agora parece cativar tanto os americanos, uma nação de 350 milhões de pessoas e um alto nível médio de vida, que os torna turistas por excelência?
Tudo aquilo que o USA Today descrimina como factores de atracção em Portugal e muito mais. Na realidade, Portugal que é talvez o mais católico de todos os países católicos porque é aquele que, pela sua posição geográfica, menos foi sujeito às ideias do protestantismo ou da chamada modernidade,   exemplifica na perfeição aquilo que há de distintivo nos países católicos.
E o que é?
Tudo. Em Portugal há de tudo. Portugal tem tudo aquilo que existe no mundo (“diga o que quer que a gente arranja”), é um país de cultura verdadeiramente universal, que é precisamente o significado de “católico”.
Portugal é o mundo em miniatura. Claro que tem comida fantástica (e extremamente barata) e quanto a bebida nem se fala; e tem monumentos de todas as épocas e estilos, e tem surf, e tem praias, e tem neve… Tem tudo. E em Portugal é possível fazer tudo. E como escreve o USA today, Portugal seduz pelo coração (não pelo intelecto)
Os americanos estão agora a descobrir uma coisa em que nem sequer os portugueses, e sobretudo os portugueses – sempre prontos a depreciar os seus e aquilo que é seu – acreditam, a saber, que na Europa (e seguramente no mundo) não existe país mais próximo do paraíso do que Portugal.
O Turismo, a mais tradicional das indústrias exportadoras portuguesas, está a crescer no mercado americano. E nós bem precisamos dela e das receitas externas que ela gera para pagar à Troika e aos outros credores internacionais.

terça-feira, 17 de março de 2015

Portugal à deriva

"Até 1974 a Constituição proibia que o Estado gastasse mais do que cobrava. Isso fazia com que a discussão económica se limitasse à forma como a comunidade se devia organizar para gastar o produto do trabalho. 

Com a «liberdade» vieram os défices , os empréstimos e a consequente acumulação de divida.

Hoje uma boa parte do produto do trabalho vai para pagar juros. Para baixar a divida essa percentagem tem que subir.

A discussão hoje já não é como gastar a riqueza produzida é como pagar ou não pagar a pobreza acumulada . O socialismo morreu, o capitalismo português morreu e mesmo eu não me sinto muito bem."

FM

sábado, 14 de março de 2015

A abolição da usura pelos bancos centrais

por Fernando Ulrich,
 

EU_1937355c.jpgA cobrança de juros inquieta as mentes pensantes desde os tempos mais remotos. Aristóteles já repudiava a prática da usura sob o argumento de que ela "fazia com que o dinheiro servisse para aumentar-se a si mesmo".
A função do dinheiro é facilitar as trocas, e não reproduzir-se na ociosidade do agiota, diziam os filósofos durante séculos.
Na visão da Igreja Católica, era um grave pecado que condenava as pobres almas. Com a ascensão do Direito Canónico, a condenação moral religiosa tornou-se crime. Mais tarde, definiu-se como usura apenas a cobrança de juros excessivos. Mas ainda hoje há quem julgue quaisquer juros uma transgressão moral — como é o caso do Islão em diversas nações — e proíba a prática na sociedade.

Contudo, depois de muito estudo e debate filosófico e académico, hoje o fenómeno dos juros parece ser um consenso entre economistas e intelectuais. Não há nada moralmente repreensível no empréstimo de dinheiro, embora juros muito elevados sejam ainda considerados abusivos — e até ilícitos —, independentemente do fato de o devedor haver consentido em contrato.

Mas hoje vivemos um novo momento na evolução da sociedade capitalista. Após o início de um novo experimento monetário, há pouco mais de 40 anos, estamos, finalmente, testemunhando o fim da usura. O que clérigo ou filósofo algum conseguiu lograr em 2.000 anos, os bancos centrais o alcançaram em menos de uma década. Nenhuma lei canónica ou pena capital foi capaz de extirpar os juros na história da humanidade, mas os banqueiros centrais modernos — verdadeiros deuses da moeda — estão efectivamente realizando uma das maiores façanhas nos anais das finanças.  

Perdoem a retórica. Obviamente, a abolição dos juros é irrealizável, pois se trata de um fenómeno da acção humana, derivado da chamada preferência temporal — ceteris paribus, preferimos um bem no presente ao mesmo bem no futuro. Do ponto de vista da pura teoria económica, uma taxa de juros negativa, ou uma preferência temporal negativa, significa que o consumo é adiado indefinidamente, ele nunca acontecerá. Trata-se, portanto, de uma premissa irreal.

Mas isso não quer dizer que os bancos centrais não possam derrubar as taxas de juros de mercado a níveis irrisórios, ou até mesmo negativos, temporariamente. Esse é o grande paradigma actual. Certamente não no Brasil, onde, na contra-mão do mundo desenvolvido, estamos elevando os juros — e com razão, é preciso ressaltar, mas isso é assunto para outro momento.

Nesse paradigma, as principais autoridades do planeta estabelecem as suas taxas básicas de juros em zero, muito próximo de zero, ou até mesmo abaixo de zero. Nesse paradigma, o presidente do Banco Central Europeu Mario Draghi e companhia injectam liquidez no sistema bancário, adquirindo activos soberanos e privados, derrubando o rendimento desses papéis a patamares antes jamais imaginados.

O usureiro sumiu. Entrou em cena um personagem peculiar; há um novo perfil de investidor, cria da era das políticas monetárias não-convencionais. Esse investidor não cobra juros. Ele paga pelo privilégio de emprestar sua poupança ao soberano, e está disposto a comprar títulos do governo suíço, mesmo sabendo que, após dez anos, receberá de volta menos do que aportou. É melhor a certeza de uma pequena perda do que correr o risco de um prejuízo ainda maior.

Neste momento, há mais de € 2 trilhões de títulos de países da Zona do Euro sendo negociados com rendimentos negativos. Com o início do quantitative easing pelo Banco Central Europeu (BCE), esse montante tende a aumentar ainda mais. Cerca de um quarto dos 346 ativos contidos no Bloomberg Global Developed Sovereign Bond Index têm rendimentos abaixo de zero.

Após abandonar o piso do euro, o Banco Nacional Suíço viu a curva de juros dos títulos soberanos do seu país apresentar rendimentos negativos até 15 anos. Mais um feito surreal para os anais das finanças.
E como os yields seguem em território negativo, no fim de fevereiro foi catalogado mais um marco para os livros de história financeira: o governo alemão leiloou, pela primeira vez, títulos de cinco anos com rendimentos abaixo de zero no mercado primário. No mercado secundário, os yields já estavam nesse nível, mas foi a primeira vez que o governo realmente levantou recursos no mercado vendendo dívida a juros negativos.

Neste momento, na Europa, papéis de cinco anos de Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Finlândia, França, Holanda e Suíça são negociados com yields negativos.
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Além das consequências económicas oriundas das políticas monetárias acomodatícias, há também repercussões práticas no quotidiano do mercado financeiro. Por toda a Europa, conforme noticiado pelo Wall Street Journal(WSJ), corretoras e outras empresas financeiras estão enfrentando complicações técnicas e legais por causa da realidade de juros negativos.

"Os mercados financeiros sempre trabalharam sob o princípio de que credores são remunerados para emprestar dinheiro", destaca a notícia, "e não com a ideia de que devedores são pagos para tomar dívida". Nenhum sistema estava preparado para operar com juros negativos; está sendo preciso redesenhar diversos sistemas operacionais para adaptá-los à realidade inédita.

E há não apenas as falhas técnicas tecnológicas, mas também as de cunho jurídico. "No ano passado, a International Swaps and Derivatives Association teve de reajustar a documentação legal padrão para um mercado de derivativos de US$ 691 trilhões", informa o WSJ.

Tudo isso é o que se vê nesta realidade paradigmática. O problema, porém, está nos efeitos não-intencionados e, na maior parte das vezes, não visíveis ou não tão previsíveis.

Os rendimentos dos papéis estão desaparecendo ou adentrando território negativo. Mas o outro lado da moeda de yields em declínio é a alta dos preços dos títulos. Embora os investidores conheçam perfeitamente a relação inversa entre rendimento e preço do activo — em um título com juros pré-fixados, quanto maior o preço pago por ele, menor se torna a taxa de rendimento implícita —, o mercado financeiro foca-se principalmente nos juros embutidos nos títulos de dívida, relegando a segundo plano o preço pago pelos activos.

Essa é uma convenção do mercado, é claro, que facilita a rápida comparação entre diferentes activos sendo negociados. Mas ela acaba ofuscando a percepção de algo que deveria estar nítido e cristalino: a formação de uma bolha descomunal de títulos de dívida soberana.

E quanto mais as autoridades monetárias agem, maior se torna a bolha. É uma espécie de círculo vicioso, uma espiral intervencionista: buscando sanar alguma suposta doença nos mercados, aplica-se a droga errada em doses indevidas, provocando o surgimento de novas complicações, as quais suscitam a aplicação de um novo remédio, e assim por diante.

Um exemplo concreto dessa constatação é o recente programa de compra de activos do BCE, intitulado Public Sector Purchase Programme (PSPP). A versão europeia de afrouxamento quantitativo tem por objectivo a aquisição de títulos de dívida do setor público — países e agências internacionais e supranacionais, como o European Financial Stability Facility — com maturidades de 2 a 30 anos, em um montante de € 60 bilhões por mês.
O propósito é trazer o índice de inflação de preços de volta à meta de 2%. Mas, além do limite de volume, há também um piso no rendimento dos títulos elegíveis no programa: estão vetados papéis com yield abaixo da taxa da deposit facility — a taxa de remuneração das reservas estacionadas no BCE, actualmente estabelecida em 20 pontos-base negativos (- 0,20%).

Em um cenário em que grande parte dos activos com maturidade até cinco anos já se encontra com rendimentos abaixo de zero, o BCE será obrigado a trabalhar na ponta mais longa da curva de juros. E qual será o resultado? A curva de juros da Europa como um todo será achatada. Os yields dos títulos de 30 anos da Alemanha já rendem menos de 1%, cerca de 70 pontos-base. E o PSPP mal começou.
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Imaginem uma curva de juros de até 30 anos próximo de zero. Pois essa já é a realidade. Um tanto distorcida, com certeza; ainda assim, é a realidade. Mas segundo o BCE, o afrouxamento quantitativo causará o mínimo possível de distorções no mercado. "Nós realmente queremos afetar os preços de mercado, mas não vamos suprimir o mecanismo de descoberta de preços", afirmou Benoît Cœuré, membro do Conselho do BCE, em discurso durante a Second International Conference on Sovereign Bond Markets, em Frankfurt. É como dizer: 

"Nós realmente queremos atear fogo, mas não vamos queimar nada".

Ora, não nos enganemos: a função das intervenções no mercado financeiro é justamente desorientar o sistema de preços, impondo a vontade dos bancos centrais em detrimento dos fundamentos subjacentes.

Em face do PSPP, já se especula sobre uma eventual escassez de títulos de dívida soberana na Europa. Isso significa que o preço subirá — o quer dizer que os rendimentos cairão ainda mais. A ponto de bater no piso de 20 pontos base negativos? Possivelmente, embora pareça um cenário esticado.

Se chegar a esse ponto, ou o BCE altera a deposit facility para - 0,30% ou os países terão de colocar mais dívida no mercado, comprometendo ainda mais o endividamento total.

Felizmente, fabricar mais títulos de dívida não custa quase nada. Difícil é inflacionar uma bolha imobiliária por muito tempo; uma hora o aço e o concreto acabam. Mas para emitir mais dívida nem mais papel é preciso, é tudo por meio electrónico. Obviamente, há as restrições de endividamento impostas pelo tratado de Maastricht, mas ninguém mais dá bola para esse documento antiquado e inconveniente. Se até a Alemanha está violando o limite de 60% de dívida sobre o PIB há mais de dez anos, por que os outros vão se importar?
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Mas diante dessa conjuntura, por que um investidor entraria nesse mercado de dívida soberana? Qual o racional de se investir € 1.000 hoje para receber € 995 em cinco anos?

A verdade é que grande parte dos investidores não está buscando um rendimento módico ou inexistente. 

Poucos estão efectivamente decididos a segurar um título soberano até o seu vencimento. O que nos remete a uma questão já abordada: o outro lado da moeda dos yields baixos é o preço do título cada vez mais alto.
Quanto mais cai o rendimento do título, mais encarece o papel. Quem investiu no German Bund a um yield de 1,25%, pode agora revender no mercado a um preço muito maior — já que o yield está em 0,25% — e realizar um belo lucro. Se os rendimentos seguirem a tendência de queda, vale a pena entrar agora e revender logo mais. Se há sempre alguém a quem vender mais caro lá na frente, vale a pena comprar agora. Sim, esse é um comportamento típico de bolha, e é precisamente o que está ocorrendo nessa classe de activos.

A qualificação "livre de risco" comumente dada à dívida soberana com certeza exacerba esse fenómeno. O que, inclusive, causa uma situação paradoxal, uma vez que investidores buscam em massa a aparente segurança de tais activos, inflacionando cada vez mais o preço, tornando o próprio activo tido como seguro mais arriscado. Somam-se a isso programas de afrouxamento quantitativo, e está armada a armadilha.

E tem mais. O rendimento dos títulos soberanos fornece não apenas um indicador de rentabilidade aos investidores, mas também, e sobretudo, um sinal sobre o custo de refinanciamento da dívida do governo.

Em uma conjuntura em que França, Espanha e Portugal conseguem refinanciar sua dívida emitindo títulos com vencimento em dez anos pagando juros de quase 1%, a mensagem que o mercado passa é que não há o menor problema — vale lembrar que, antes de qualquer crise de dívida soberana europeia, os yields estavam em um patamar quase três vezes maior do que agora. Os soberanos podem ficar tranquilos, os investidores seguem confiando na capacidade de pagamento de seus governos.

Nesse estado de coisas, que incentivo têm esses países para efectivar um ajuste fiscal de fato? Os presidentes do Bundesbank e do Nederlandsche Bank já levantaram a bandeira amarela: o afrouxamento quantitativo ameaça a disciplina natural imposta pelos mercados, provendo aos soberanos sinais perigosos de uma falsa solidez fiscal. 

Qual será o resultado? Governos com uma capacidade futura de pagamento deteriorada, tornando seus papéis de dívida uma aposta cada vez mais arriscada. É uma receita para o desastre.

A manipulação da taxa de juros é o sistema vigente em todo o globo, inclusive no nosso país. É um controle de preço. E, certamente, o preço mais importante da economia. Qualquer tentativa de controlar um preço gerará graves consequências não intencionadas, desarranjando a economia e gerando desequilíbrios.

Políticas de afrouxamento quantitativo e taxas de juros ultra-reduzidas estão distorcendo o balanço dos bancos, aumentando a dependência das taxas de juros em zero. O maior risco para a estabilidade do sistema financeiro global é justamente a política de juros zero. E por quanto mais tempo ela é mantida, mais graves e profundos se tornam os desequilíbrios, mais activos vão sendo acumulados no balanço dos bancos, mais vulnerável se torna todo o sistema bancário a qualquer elevação de juros.

Os bancos centrais estão abolindo não apenas a usura, mas também o mecanismo de preços, os incentivos naturais de mercado, a disciplina e a prudência do investidor, e instaurando um sistema anómalo em que o risco subjacente é controlado pelas vontades de banqueiros centrais sob justificativas teóricas falaciosas, com consequências práticas temerárias.

Tratando-se especificamente do PSPP, não havia a menor razão para lançar esse novo programa. Os yields de toda a Zona do Euro já estavam no chão. Não havia justificativa do ponto de vista fiscal. Mas a fobia dogmática da deflação levou Mario Draghi a embarcar em uma ousada e perigosa política de quantitative easing.

Contrariando o que afirmam muitos analistas, o problema actual não é a divergência entre as políticas monetárias nos dois lados do Atlântico. O problema é a divergência abismal entre o bom senso e as teorias económicas prevalecentes. 

quinta-feira, 12 de março de 2015

Governo popular

O pior para um país é ter um governo popular. Neste caso a tendência natural do estado de expandir e destruir não tem limite.

AM


quarta-feira, 11 de março de 2015

O sonho digital

O Google é responsável por cerca de 68% do mercado de mecanismos de busca. O segundo colocado é a Microsoft com 19% e a Yahoo! o terceiro, com apenas 10%.
O mercado publicitário em motores de busca alcança 17 biliões de dólares anuais, nos Estados Unidos. 37 biliões no mundo todo. O mercado global de publicidade orbita em torno de 500 biliões de dólares. Ou seja, hoje o Google representa apenas 3,4% do mercado de publicidade global, ainda que detenha 68% de toda a vitrina que circule na internet do planeta.
A internet, hoje, rivaliza com o público em número de horas em relação à televisão. Em algumas camadas já a supera, no entanto, recebe menos de 5% de todo o orçamento publicitário.
Ninguém tem a ideia do que isso se tornará nos próximos 10 anos. Não é a toa que carreiras de dez, quinze e vinte anos, em sectores mais tradicionais da economia, administração e gestão estão a ser trocadas pelo sonho digital.
IC


sexta-feira, 6 de março de 2015

A pior das tiranias

“Dentre todas as tiranias, uma tirania exercida pelo bem de suas vítimas talvez seja a mais opressiva. Pode ser melhor viver sob um ditador desonesto do que sob onipotentes cruzadores da moralidade. A crueldade do ditador desonesto às vezes pode se acomodar, em algum ponto sua cobiça pode ser saciada; mas aqueles que nos atormentam para o nosso próprio bem irão nos atormentar indefinidamente, pois eles assim o fazem com a aprovação de suas próprias consciências.”

C. S. Lewis


terça-feira, 3 de março de 2015

O que faz falta à SS


É uma verdadeira SS...


Ironia à parte, este é o momento ideal para o governo inovar e experimentar um novo modelo de contribuição baseado na capitalização individual ou será que vai querer perpetuar e até aumentar a  opressão/ repressão pública para manter a vigarice de um esquema que mais não é que um esquema ponzi?





segunda-feira, 2 de março de 2015

O carro que Salazar não quis

Mercedes-Benz 770 Grosser: o carro que Salazar não quis


Mercedes Salazar-14

Após o inconsequente atentado à bomba levado a cabo no domingo, dia 4 de Julho de 1937, quando Salazar se encaminhava para assistir à Missa da manhã na Avenida Barbosa du Bocage, a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE) tratou de encomendar, a 27 de Outubro de 1937, dois modelos Type 770 Grosser com carroçaria blindada Pullmansteel. A nota de encomenda foi feita através do agente da marca, em Lisboa, a Sociedade Comercial Mattos Tavares, Lda. que tratou de a passar para os escritórios da marca na Alemanha.

Salazar, que não fora consultado sobre a aquisição destes automóveis, logo manifestou o seu descontentamento, recusando-se a utilizar o Mercedes que lhe fora atribuído. O Mercedes-Benz foi utilizado apenas uma vez, por ocasião da visita oficial do Generalíssimo Franco, em 1949.

Normalmente era aproveitado pelo motorista Raul para transportar as visitas ao Palacete de S. Bento. Daí só acusar 6.000 quilómetros quando, dezassete anos depois, é mandado vender em hasta pública, pela direcção-geral da Fazenda. 
aqui