Tenho lido e ouvido em várias ocasiões que os sinais de
recuperação estão aí. E a minha pergunta é: Onde é que estão eles? Porque eu
não os vejo!
Para me deixar convencer preciso de indicadores fiáveis, e não o
“sentimento de confiança” deste ou daquele grupo de pessoas, analisado por esta ou aquela
instituição mais ou menos credível.
- Preciso de ver o défice público a roçar o zero para ver a
dívida líquida a começar a baixar
- Preciso de ver os impostos a baixar para estimular
investimento
- Preciso de ver a dívida acumulada de empresas e famílias a
descer dos 300% do PIB atuais para os 100-150%, libertando recursos e poupanças
para novos investimentos.
Mas como sinal positivo, o endividamento das famílias já desce
desde 2010 e o das empresas parou de aumentar também por essa altura.
Pergunta: mas terá sido por razões estruturais ou porque a torneira fechou naquele ano? Se a torneira
voltar a abrir voltaremos novamente a pedir emprestado à maluca?
Os dados são do Banco de portugal, eu fiz os gráficos.
Agrada-me muito que as famílias tenham parado de pedir mais dívida e até já começaram a reduzi-la a uma taxa anual interessante, julgo que 7 mil milhões em 2011 e mais outros 7 mil milhões em 2012, citando de cor, mas ainda assim o total de dívida é superior ao nosso PIB.
A dívida das empresas tem mesmo que descer, o que para já não está a acontecer.
Para um PIB que vai andar pelos 160 mil milhões em 2013, termos uma dívida das empresas de 310 mil milhões acho totalmente surreal, e se somarmos as empresas públicas, que também são empresas como as outras, o valor cresce para 355 mil milhões ! Pior ainda é ter uma dívida total acumulada de mais de 700 mil milhões para um PIB de 160 mil milhões.
Para mim, isto não é economia, é loucura.
- Preciso também de ver a FBCF ou Investimento a deixar de cair 5, 10 ou 15% ao ano para entrar em terreno positivo..
Num gráfico que recuperei do Contas, tentem apenas seguir a trajetória da linha verde, o que não é fácil. Ela vem de crescimentos anuais de 15% na década de 90 para rastejar entre -5 e -12% em 2010 e 2011.
E 2012, para animar a festa, será ainda pior, julgo que rondará os 18%, citando de cor.
Lendo as palavras do INE que o Pedro transcreveu: "Procura Interna apresentou contributo menos negativo [...] (fruto) de uma redução menos expressiva do Investimento"
O que é que isto quer dizer?
Que deixou de cair 18% em trimestres anteriores para cair apenas 15, 12% neste último? Não chega.
Agora as tendências positivistas/otimistas, mas que das quais eu desconfio:
- O recente “regresso” aos mercados de que já toda a gente
fala, fruto da renovada confiança dos investidores, pode ser um início de
qualquer coisa, mas também não chega nem é condição para nada. Nenhum país cresce
sustentadamente quando precisa de se endividar em 5€ ou 6€ para gerar 1€ e de
PIB. Esse foi o caminho da desgraça portuguesa desde a nossa entrada no €.
- Há também aquele mito popular de que já “batemos no fundo” e portanto a recuperação tem que surgir.
Pergunto eu: Em que critérios se baseiam? Dificilmente obteremos respostas credíveis. O que há, e ainda bem que há, é uma enorme esperança e vontade de que as coisas mudem para melhor, mas para mim isso não chega.
Podemos retirar várias leituras deste gráfico que o INE fez acompanhar no boletim que lançou na quinta-feira passada:
PRIMEIRA:
A otimista/estatística: Já estamos há 8 trimestres consecutivos em recessão. Nunca na história recente isto aconteceu, e portanto estamos prestes a sair dela porque o ajustamento já está a ir muito para além do que é... costume. António Borges enquadra-se nesta leitura, penso eu, e citando-o de cor:
"...Até podemos pensar em crescimentos de 3,4,5% brevemente, já que o ajustamento está mais do que feito".
Esta visão positivista baseada na estatística é uma das que mais facilmente convence os investidores, e realmente não é de estranhar que tenha havido uma confiança renovada no país e na nossa dívida. Está tudo a querer acreditar que a história irá repetir-se: depois de grande recessão, grande crescimento, e muita gente quer ficar na primeira carruagem. Penso que o mercado de ações e da dívida está inundado deste tipo de otimismo.
SEGUNDA
A otimista apenas: Já batemos no fundo. Isto não pode cair mais, é impossível. A Europa não irá deixar que isto nos aconteça. Somos diferentes da Grécia. Isto tem que estar prestes a mudar. Temos que ter esperança e agarrarmo-nos a qualquer coisa. Vou-me já começar a preparar e comprar ações de empresas que acho que estão baratas (como o BCP por exemplo), porque não quero perder a carruagem das fortes valorizações. Alguns investidores e franjas da população poderão pensar assim, indo um bocadinho a reboque dos investidores que se inserem na primeira leitura.
TERCEIRA
Estamos com 8 trimestres recessivos (2011 e 2012), precedidos de 4 trimestre positivos (2010) e 5 trimestres negativos (IV2008 e 2009). Este comportamento representa um novo padrão de NÃO crescimento do PIB, inédito na nossa história económica recente. A tendência de queda no crescimento já vem desde a década de 90, mas como era superior a ZERO, a malta ainda ia acreditando que as coisas poderiam mudar.
Mas 2008 marca uma viragem na história económica portuguesa:
Passámos a ter mais trimestres recessivos do que de crescimento.
O padrão que se repetia ciclicamente de 3 ou 4 trimestres recessivos seguidos de 15 ou 20 trimestres de crescimento desapareceu desde esse ano. Passámos dum rácio de 4-20 (Pré2008) para 13-4 (Pós2008) !!!
Mas muita gente continua ainda a pensar PRÉ2008. E porquê?
Porque não está a ter em conta que em todos esses anos, por cada 1€ de PIB gerado, somávamos 4,5 ou 6€ de dívida.
A Dívida não estava a alavancar o PIB, apenas o fazia crescer em aparência. Ela crescia 3 ou 4 vezes mais depressa do que ele.
Um dia a coisa iria explodir-nos nas mãos.
Esse dia chegaria mais cedo ou mais tarde em função desta taxa de endividamento/PIB e de um je ne sais quoi que afugentaria investidores e espoletaria tudo isto. Acabou por surgir com a crise do subprime nos EUA, seguida de recessão mundial e desconfiança dos investidores em relação à Grécia e logo de seguida à Irlanda. Pronto, foi assim..
Agradeço ao Pedro por ter feito o comentário no post, porque assim obrigou-me a pensar um bocadinho mais sobre o assunto e procurar novos argumentos.
Tiago Mestre
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Quando é que saímos do euro?
ResponderEliminarPergunta ao joão ferreira do amaral
ResponderEliminarEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderEliminarArtigo longo, mas bastante bom Tiago.
ResponderEliminarÉ sempre bom ver as pessoas parar para pensar, este país é demasiado irracional.
Uma pequena questão, qual é o caminho, reduzir o défice para reduzir impostos ou reduzir impostos para reduzir o défice?
Eu também preferia reduzir primeiro impostos, mas sinceramente, penso-me que iria tornar o caminho mais longo e penoso.
Gostava de perceber melhor a questão da espiral recessiva, como se pronuncia?
Eu sei que é significa que recessão leva a mais recessão em espiral, mas, pode ser considerada se os efeitos são externos?
É que, se a procura interna diminuiu menos, mas a recessão europeia levou também à diminuição das exportações, a espiral recessiva pode ser considerada?
Claro que podemos pensar que sim porque a estrutura de exportações nacional faz com que haja dependência da Europa, mas, a estrutura também se está a alterar. Há portanto uma melhoria estrutural, prejudicada por algo conjuntural. Podemos então falar em espiral recessiva? Eu diria que não.
Gostava também de ter dados sobre a diminuição do investimento.
As próximas semanas serão importantes (talvez) em termos de estruturas de custos públicos.
Pensa Portugal.
É verdade que o post é muito extenso.
ResponderEliminarComecei a escrevê-lo ontem à noite quando vinha no comboio do Porto para Lx, mas uma forte dor de cabeça impediu-me de continuar. Completei hoje de manhã e não me apercebi de quão longo era.
Sobre reduzir primeiro impostos ou reduzir défice. Eu só vejo a hipótese de primeiro reduzir défice, apesar de que gostaria de reduzir impostos primeiro.
Em certa medida, eu concordaria numa redução de despesa draconiana, tipo 10 mil milhões num ano, e tentar logo baixar os impostos no ano seguinte. Agora quais? Não pensei nisso.
Sobre a espiral recessiva, foi um termo bonito que alguém inventou, apesar de que "espiral" remete para a ideia de que só termina no infinito, e não é assim neste caso.
Sobre o estrutural ter melhorado, apenas prejudicado pelo conjuntural, tendo a concordar contigo:
Reduzimos as importações e estamos a alterar o foco das exportações.
São bons sinais que revelam que o ajuste está em plena marcha.
Falta agora saber como iremos sobreviver a uma desalavancagem de crédito, que não será curta nem leve, tal é o volume de dívida face ao nosso PIB, e esta é que me preocupa imenso.
Ou então não se faz reestruturação de crédito nenhuma e empurra-se com a barriga uns anos mais para a frente. Serão os políticos a decidir isso
Sem nada a acrescentar Tiago, neste ponto penso exactamente como tu.
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