sábado, 7 de fevereiro de 2015

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

A Economia é uma ciência e não uma democracia

Um povo não pode votar para ser rico.
Da mesma forma que uma pessoa eleita mesmo que por unanimidade com a promessa de que vai fazer o rio Nilo desaguar em Marrocos não pode cumprir o programa eleitoral também o grego que foi eleito prometendo que vai iniciar um caminho novo de crescimento económico não o pode fazer.
A Economia é uma ciência e não tarot e, como tal, não existem caminhos alternativos ao programa da Troika que levem ao crescimento e ao emprego.

Fig. 1 - O "outro caminho" é o caminho da lama e da miséria

Primeira verdade = > A Economia estuda a afectação dos recursos escassos.
No mundo existem recursos limitados (recursos naturais e capacidade de trabalho) que vão ser usados na produção de bens e serviços, havendo mais recursos naturais ou as pessoas trabalhando mais, haverá maior produção. Depois, os B&S pode ser consumida ou acumulada na forma de capital (a poupança).
O capital é tudo o que, com sacrifício, foi poupando e acumulado podendo ser máquinas e as ferramentas, melhoramentos nos recursos naturais ou escolaridade.
Ao longo do tempo a produção vai evoluir

Produção(t = 0) <= Função do {Capital(t = 0); Recursos Naturais (t = 0); Trabalho (t = 0)}
Produção (t = 0) => Consumo (t = 0) + Poupança(t = 0)

Capital (t = 1) <= Capital (t = 0) + Poupança(t = 0)
Produção(t = 1) <= Função do {Capital(t = 1); Recursos Naturais (t = 1); Trabalho (t = 1)}

Isto é fatal como o destino.
Como os recursos naturais não se multiplicam e as pessoas não querem trabalhar mais, para haver crescimento económico, i.e., para que a Produção(t = 1) seja maior que Produção(t = 0), o capital tem que aumentar de período para período o que implica que tem que haver poupança.
São tudo decisões difíceis pois poupar prejudica o consumo actual e "no futuro estamos todos mortos" e trabalhar custa muito.

Segunda verdade => As vontades das pessoas encontram-se no mercado.
Ouvem muito falar do "mercado" mas provavelmente nunca ninguém vos explicou o que isso é. De facto não passa do local onde se encontram das vontades das pessoas.
Se eu quero trabalhar e existe um empresário que quer contratar um trabalhador, o mercado é,
  =>do lado da oferta, a entrevista em que eu me apresento, digo as minhas competências e o salário que pretendo e,
  => do lado da procura, o empresário que apresenta a empresa, as necessidades do posto de trabalho e o salário que pretende pagar.
A variável em discussão no mercado vai ser o preço (o salário de equilíbrio) e a quantidade (haver ou não contratação).
Por exemplo, para o tipo de trabalho que vou fazer, peço 5000€/mês e o empresário, para as minhas competências, oferece-me 600€/mês. Vamos discutindo longamente e chegamos a "equilíbrio" nos 850€/mês. Este preço é bom para mim e bom para o empresário pois, caso contrário, o mercado equilibrava pela quantidade: se fosse mau para mim eu não aceitava o emprego (continuava a escrever no blog) e, se fosse mau para o empresário, não me contratava (deixava o lugar por preencher).

A concorrência.
Como no mundo não existo apenas eu nem apenas esse empresário, para mim até poderia bom um salário de 700€/mês mas não o aceito porque tenho a convicção de que indo a mais entrevistas consigo arranjar uma proposta de 850€/mês. O empresário não me paga 1000€/mês porque tem a convicção de que entrevistando mais pessoa, consegue um trabalhador por 850€/mês. Então, os 850€/mês é o preço de mercado concorrencial e serve de medida para todos os "mercados bilaterais".

E se houver um preço mínimo obrigatório?
Vamos supor que tinha havido eleições nas quais o candidato vitorioso tinha prometido que o Salário Mínimo iria aumentar para 1000€/mês.
Na minha entrevista, o empresário saberia que não conseguia contratar ninguém por 850€/mês mas, mesmo assim, só me pagaria esse salário se eu, em previsão, conseguisse produzir mais do que 1000€/mês.
Se assim não fosse, eu ficaria desempregado.

Então para que serve o Salário Mínimo?
Serve apenas para, quando há muitos trabalhadores (concorrência na oferta) e apenas um ou dois empresários (monopólio na procura), o empresário não esmagar o trabalhador que vai à entrevista.
Mas todas sabemos que existem muitos empregadores, milhares e milhares, pelo que o problema do monopólio do lado da procura não existe. Então, a existência de salário mínimo apenas tem objectivos eleitorais junto de eleitores que são ignorantes em Economia mas com o custo social de causar a exclusão do mercado de trabalho das pessoas menos produtivas como sejam os jovens, as mulheres e as pessoas de baixa escolaridade e competências.

O Salário Mínimo causa exclusão.
Se quem ganha 400€/mês é pobre, o que será uma pessoa que não consegue arranjar trabalho porque tem pouca escolaridade e competências?
Vai ser criado um protestante manipulável pelas elites que se dizem da esquerda para obrigar o governo a manter os seus privilégios. Reparem que todas as pessoas que aparecem na TV a dizer que "em Portugal existe muita desigualdade" têm rendimentos bem acima da média.

Vamos agora à Grécia ver o que fizeram nos últimos 4 anos de Troika.
Em 2012 a taxa de desemprego grego já estava nos 20% quando o governo grego aceitou a descida do salário mínimo para os 580€/mês (quando a Troika queria que descesse para 450€/mês).
A questão do salário mínimo é uma questão científica e não uma decisão política pois, caso o fosse, todos os governos subiriam o SMN para pelo menos 500000€/mês.
Em termos técnicos, se o SMN ultrapassar os 35% do PIB per capita começa a excluir do mercado do trabalho muitas pessoas.

O que fizeram os gregos?
Na Grécia, até à 2007 o SMN esteve nesse valor aceitável mas no período pós crise do sub-prime aumentou significativamente (por causa do aumento nominal e da diminuição do PIB pc) até atingir em 2011 56% do PIBpc. O ajustamento obrigou a que em 2012 o SMN descesse de 751€/mês para 580€/mês, desceu de 56% do PIBpc para 45% (ver, Fig. 2). Claro que deveria descer para 451€/mês mas já foi qualquer coisa.
Contas: o PIBpc grego é de 18222€/ano (WB, 2013), multiplicando por 35% e dividindo por 14 meses, dá 451€.

Fig. 2 - O SMN grego desceu 20 pontos 

A descida do SMN grego foi acompanhada por uma descida do salário médio de 20% (ver, Fig. 3). 

Fig. 3 - Os custos do trabalho grego desceram 20% 

A descida dos custos do trabalho parou o crescimento do desemprego e inverteu a tendência (ver, Fig. 4).

Fig. 4 - Em meados de 2013 o desemprego começou a diminuir.

E qual deveria ser o salário mínimo português?
Deveria ser igualmente de 450€/mês pois actualmente temos o mesmo PIB pc grego. Em termos económicos o aumento do SMN para 505€/mês foi um erro (o SMN passou a ser de 39% do PIBpc) mas, em termos políticos, teve que ser.
O SMS grego acabou de ser aumentado por decreto para 751€/mês (58% do PIBpc) o que vai ser uma tragédia no mercado de trabalho pois o ajustamento será feito pela quantidade (o desemprego vai recomeçar a crescer).

Mas o desemprego é problema deles, o nosso é a Balança Corrente.
Até podem ter taxas de desemprego de 99% porque isso é problema deles. Por isso, subirem o SMN para 751€/mês ou para 3000€/mês não nos afecta em nada, apenas afecta a eles.
O nosso problema (o problema dos não residentes na Grécia) traduz-se pelo défice na Balança Corrente que contabiliza todas as transacções económicas de um país com o exterior.
Se um país tiver a Balança Corrente deficitária terá obrigatoriamente que se endividar no exterior. Como o risco de bancarrota do estado grego é muito elevado, nenhum particular empresta dinheiro à Grécia pelo que, não sendo o financiamento da Troika, a balança corrente ajusta pela taxa de juro: o preço do crédito torna-se tão elevado que se torna impossível aos agentes económicos gregos endividarem-se face ao exterior.

Fig. 5 - As contas gregas com o exterior equilibraram-se

Agora, não é preciso a Sr.a Merkel fazer nada.
Concerteza que os gregos nunca pagarão nada do que devem mas não se vão endividar mais.
Há já vários anos que ninguém empresta um cêntimo à Grécia nem aos bancos gregos que não a Trioka pelo que não podem importar mais do que exportarem (mais o turismo e transferência).
Se o Holland, Putin, Obama ou outro qualquer quiser dar dinheiro aos esquerdistas gregos, eles podem gastar. Senão, vão ter que continuar o caminho actual de austeridade.

Como vai ser o mecanismo futuro.
Até ao dia 25 de Janeiro, quando o Governo tinha défice não previsto no Programa de Ajustamento pedia à Troika autorização para emitir dívida pública. Os bancos compravam essa dívida (i.e., emprestavam o dinheiro ao Estado a 3,5%/ano) porque sabiam que no dia seguinte podiam utilizar esses papeis de dívida pública para obter financiamento junto do BCE (a 0,25%/ano).
Agora, o BCE disse que não aceita mais esses papeis de divida pública grega como garantia de empréstimos. Quer isto dizer que o BCE acredita que o Estado Grego vai entrar em bancarrota total e, por isso, dá valor zero a esses papeis.

O que vai acontecer.
Lembram-se do "espaço bancário único" que os esquerdistas defenderam? Pois vai ser usado para apertar os gregos.
O balanço dos bancos gregos vai ser recalculado considerando que a dívida pública grega vale zero.
Depois, banco a banco, se o balanço continuar positivo, o Banco Central Grego, BCG, pode emprestar dinheiro para permitir que os depositantes transfiram os seus saldos para onde quiserem (naturalmente, para fora da Grécia). Se der negativo, o BCG tem que "resolver" o banco criando o Banco Bom (com as dividas aos BCE, os depósitos até 100mil€ e activos bons que garantam esses depósitos) e o Banco Mau com o resto (como fizeram com o BES). Depois, mediante a entrega dos activos bons, o BCG pode emprestar o dinheiro até um máximo global de 60 mil milhões € (caso o BCE não rasgue o Memorando da Troika!). O Banco Mau fica entregue a si próprio (como o nosso BES está) e o mais natural é que declare falência.
Um a um, os banco gregos terão que ser resolvidos.

E o futuro?
A economia é melhor que a saúde onde, havendo abordagens alternativas tipo bruxo, o paciente morre.
Os esquerdistas vão implementar medidas totalmente erradas e contra tudo o que se sabe em Economia. O desemprego vai crescer, a economia afundar e, daqui a uns meses ou anos, vão perder as eleições contra um candidato qualquer que vai promete chamar a Troika de volta e retomar o "caminho da austeridade".
Foi exactamente isso que nos aconteceu em 1974 com tudo a virar para o caminho soviético para, logo em 1977, o Mário Soares (alegadamente esquerdista) ter que chamar o FMI (e outra vez em 1982).

A história é assim.
Alguém se lembra que na WWII os alemães nazis mataram 6 milhões de ucranianos soviéticos? Alguém se lembra de como os ucranianos odiavam os alemães e amavam os russos?
Alguém acharia possível que hoje os países da "Europa de Leste" odeiassem os russos como odeiam e que a Alemanha fosse a grande aliada da Ucrânia contra a Rússia?
Com a Grécia vai ser igual. Estes esquerdistas batem com a cabeça na parede, com isso ajudam o novo povo a ver onde vai dar o "outro caminho" do António Costa e, daqui a uns tempos, tudo volta ao normal.
Volta a Troika e tudo será esquecido mas com os gregos mais pobres.

Falta uma palavrinha sobre o António Costa.
Os camaristas de Lisboa anunciaram em parangonas que reduziram o endividamento da câmara.
Lá no meio falaram em voz baixa que as receitas do IMI explodiram.
Mas isso aconteceu porque a Troika assim obrigou o Passos Coelho a fazer.
Afinal foi a Troika e a politica de Austeridade que meteu dinheiro na Câmara de Lisboa.
E o Costa não disse que " assim que o PS for governo, vamos acabar com essa espoliação dos proprietários de imóveis imposta pelos ditames da Sr.a Merkel".
Mau!

Já há muito que não falo do Ébola.
Desde Dezembro que as coisas estão a correr bem ao ponto de, em pouco mais de um mês, o número de novos casos ter reduzido para metade. Em Dezembro estava nos 110 casos por dia, agora está nos 55 casos por dia, a manter-se a tendência, em Março haverá 25 casos por dia em fins de Abril 10 casos por dia e em Maio acaba com uns 10 mil mortos.

Fig. 6 - Novos casos de Ébola por dia estão a diminuir (dados: ver wiki)

Pedro Cosme Vieira

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O verdadeiro tempo fascista está a chegar...


Para muitos portugueses a Suécia é um exemplo a seguir...



Passar o crachá para entrar no escritório é coisa do passado, pelo menos para os funcionários do Epicenter, um novo prédio de escritórios construído na Suécia. Em vez dos métodos tradicionais de identificação, como os cartões e a digital, foi oferecido aos 400 trabalhadores do edifício o implante de um chip. que pode ser usado não apenas para abrir portas, mas para uma infinidade de outros serviços.

- Nós queremos poder entender essa tecnologia antes que grandes corporações e governos cheguem a nós e digam que todos devem ter um chip. O chip da Receita Federal, o chip do Facebook ou do Google — disse à BBC Hannes Sjoblad, diretor de tecnologia do escritório.

O pequeno chip de identificação por radiofrequência (RFID) é implantado nas mãos dos funcionários. O repórter da BBC Rory Cellan-Jones foi um dos chipados. Ele conta que o procedimento, feito por um tatuador, é rápido, mas dolorido.

- Foi um momento de dor, não muito pior que uma injeção — contou.
O chip serve para entrar no edifício, abrir portas de escritórios e liberar o uso da copiadora, mas, em breve, deve ganhar outras funções, como realizar pagamentos na cantina ou liberar o uso de computadores.

notícia aqui

A incrível decadência argentina




Amilton Aquino, em O Mundo, 01/08/2014

Existe uma piada que diz que o melhor negócio do mundo é comprar um argentino pelo que ele realmente vale e revendê-lo pelo que ele acha que vale. O pano de fundo desta piada é o orgulho argentino, conhecido em todo mundo. 
Basta imaginar que até o início dos anos 50, a Argentina era a sexta maior economia do mundo, com uma população escolarizada, recursos naturais abundantes e uma indústria pungente que disputava de igual para igual até mesmo em sectores de alta tecnologia, como o automóvel. 
E não se tratavam de apenas filiais estrangeiras. A Argentina tinha sua própria marca de automóveis (SIAM), além de várias outras de electrodomésticos. 
A riqueza argentina era tamanha que o país, em 1920, chegou a ter reservas em ouro superiores ao decadente império britânico, e ao emergente novo império norte-americano. Era praticamente um “europeu” latino americano. Não por acaso, o país tornou-se o destino preferido de milhões de refugiados das duas guerras mundiais, inclusive de carrascos nazistas acolhidos por Perón.
Meio século depois, a Argentina não passa de mais um problemático país latino-americano, com as conhecidas mazelas que afligem o continente, como favelas, violência crescente, inflação galopante, analfabetismo e doenças epidémicas, entre outros. 
A decadência da Argentina é tão evidente que o país virou um "case" internacional, citado como um caso raro de país que “involuiu” nas últimas décadas. Uma rápida comparação com o Brasil dá uma ideia da decadência dos nossos hermanos. 
A economia, que até os anos 50 era maior que a nossa, hoje é menor que a economia do estado de São Paulo. Agora imagine-se na pele de um argentino que viveu este apogeu, ver o país hoje em mais uma moratória, com uma inflação de 40%, dependente da economia brasileira.
Mas, afinal, o que causou toda esta decadência? Como a Argentina conseguiu empobrecer justamente no momento em que tantos países asiáticos, antes miseráveis, ascenderam económica e socialmente, a ponto de alguns deles integrarem hoje o clube dos ricos?
A Argentina é vítima do que Hayek chamou de “caminho da servidão”, um processo lento e gradual de colectivização, aumento do intervencionismo estatal e polarização da sociedade em diferentes níveis.
O início de tal processo tem uma data: 04/06/1946, dia da chegada de Perón ao poder. O simpatizante de Hitler e Mussolini iniciou uma tradição populista na Argentina que dura até os dias de hoje.
A exemplo de Getúlio Vargas no Brasil, que instituiu os direitos trabalhistas inspirados na Carta del Lavoro de Mussolini e se tornou o “pai dos pobres”, Perón dividiu a Argentina entre seus apoiantes (o bem, o povão, os “trabalhadores”) e seus adversários (o mal, os “exploradores capitalistas”, a velha “elite colonial”- lembra alguém? ). E como sempre acontece nestes casos, os discursos inflamados dos “pais dos pobres” conquistaram os eleitores da base da pirâmide. 
Começou então uma simbiose entre a nova elite governante trabalhista/socializante, que precisa dos votos da massa para continuar oferecendo-lhes novas “conquistas”, e a massa, que descobre o poder do voto e passa a endeusar seus ídolos. A conquista da hegemonia da opinião publica passa a moldar também os políticos. 
Com medo de se colocarem “contra os pobres”, até mesmo políticos da antiga aristocracia migraram para a base do governo peronista. Aos poucos, a oposição foi minguando, ao mesmo tempo em que a Argentina transformava-se numa república sindicalista. 
E, mais uma vez, como sempre acontece, no começo tudo é festa. Aumento do salário mínimo acima da inflação, aumento do crédito, crescimento recorde, nacionalização de multinacionais, grandes obras, políticas de transferência de renda e tudo o mais que já nos é bem familiar. 
Mas todo crescimento artificial tem um preço. A factura vem com o tempo e com ela os efeitos negativos decorrentes do intervencionismo governamental. Ao final do primeiro mandato de Perón, a Argentina já dava claros sinais de crise, com as exportações caindo pela metade, reservas se esvaindo e aproximando a balança comercial de um déficit histórico, uma vez que até então a Argentina tinha sempre grandes superávits. 
Apesar de todos estes sinais, o caudilho conseguiu mudar a legislação que lhe deu mais cinco anos de mandato. 
O segundo mandato foi ainda pior, abrindo espaço para o primeiro de uma sequência de golpes militares só interrompido nos anos 70 com um breve período de redemocratização onde, mais uma vez, o peronismo voltou ao poder. 
E, como da primeira vez, em pouco mais de um ano de governo, Perón já multiplicou a inflação que chegou a 74% em 1974. Dois anos depois, chegaria à casa dos 954%!
Para completar a tragédia argentina, Perón morreu em pleno mandato, o que o elevou ainda mais à categoria de mito.
Sua terceira mulher, “Isabelita”, assumiu então o governo e continuou seu projecto populista, afundando ainda mais a economia argentina. E, como sempre acontece na América Latina, os militares estão sempre prontos para um novo golpe. E foi o que aconteceu. 
Em 1976, começava um dos regimes mais truculentos da América Latina. A esta altura, além de Perón e Evita, a segunda esposa que quase vira santa, a Argentina já tinha um novo mito para cultuar: Che Guevara. 
Agora, além dos adversários peronistas, os desastrados militares argentinos tinham também como novos inimigos os diversos movimentos de esquerda que se organizavam em toda a América Latina e que tentavam chegar ao poder pela via armada.
Paralelamente, a exemplo do que aconteceu no Brasil e em todo mundo, o marxismo cultural passou a dominar os meios académicos e culturais, avançando graduadamente por todas as demais áreas estratégicas para a construção da “nova mentalidade” gramisciana. 
No campo económico, o segundo período militar argentino herdou a época do choque do petróleo que culminou com o aumento expressivo dos juros em 1982, os quais elevaram substancialmente as dívidas dos países do chamado Terceiro Mundo. 
A nova redemocratização veio em 1983 com Raul Alfonsín que, a exemplo de Sarney, no Brasil, fracassou redondamente no combate à inflação.
A nova esperança surgia na figura populista de um novo peronista, Carlos Menem, em 1989. Os tempos agora eram outros. Não havia mais espaço para novas “conquistas trabalhistas” como no passado. A grave crise dos anos 90 levou Menem a ser pragmático, aderindo ao Consenso de Washington, a odiada “cartilha neoliberal”. 
Suas raízes populistas peronistas, no entanto, não lhe permitiram executar bem as dez recomendações do Consenso de Washington (confira aqui o nosso post que compara os governos argentino e brasileiro na execução das tais recomendações). 
Apesar disso, Menem passou a ser apontado pelos esquerdistas como o maior exemplo de fracasso das políticas “neoliberais”. Um dos seus principais erros foi desobedecer à diretriz que recomendava câmbio flutuante. 
Ao invés disso, ele dolarizou a economia argentina, instituindo a paridade entre o peso e o dólar. E, como previsto por diversos economistas, ao longo dos anos a situação da Argentina foi se agravando paulatinamente, a ponto de quebrar duas vezes em um intervalo de quatro anos. 
Em meio à mais profunda crise da história da Argentina, que culminou com mais uma moratória em 2002, eis que surge um novo salvador da pátria, também peronista: Néstor Kirchner.
E, assim como no Brasil, quando Lula assumiu justamente no início do ciclo de maior crescimento do capitalismo desde o final da II Guerra Mundial, Kirchner começou a contar com o aumento expressivo das receitas decorrentes do aumento dos preços dos seus principais produtos de exportação. 
E assim Kirchner surfou na onda da globalização chinesa, esquecendo, no entanto, de fazer reformas estruturais para tornar o crescimento sustentável nos próximos anos. 
Terminado o período do boom de crescimento global, as mazelas da economia argentina começaram a reaparecer. E o governo dos Kirchner, que começou com um calote da dívida externa, vai terminar da mesma forma, com um novo calote, com uma inflação galopante.
E mais uma vez a história se repete. A Argentina não aprende com os próprios erros, tornando-se cada vez mais refém da mentalidade populista que asfixia a economia e produz políticos mais interessados no poder do que realmente resolver os problemas argentinos.
Qualquer semelhança não é mera coincidência...


domingo, 1 de fevereiro de 2015

A implosão dos socialistas

Por ironia, a grande mudança que António Costa celebrou na passada semana está ser feita à custa do esfrangalhar dos partidos socialistas. Primeiro do PASOK. Depois, muito provavelmente, do PSOE.

Helena Matos no Observador

A carga fiscal em Portugal



A carga fiscal em Portugal está mais ou menos na média da UE, o problema é que o esforço fiscal (ou seja, a receita dos impostos medida em % da capacidade dos contribuintes de a pagar) é a mais alta da Europa. Em 2010 já era 165% da média. O que isto significa, provavelmente, é que já foi ultrapassado esse limite e nesta altura devem estar a acumular-se dívidas fiscais que entram na contabilidade do Estado como receita mesmo que as pessoas não as consigam pagar. Desde o Paulo Macedo, a Autoridade Tributária permite-se todos os abusos, os media propagam a propensão dos tugas para a fuga fiscal, no estado fazem-se juras de combate à fuga e evasão fiscal, etc. Pois. A ideia que os portugueses fogem muito ao fisco é um mito, uma aldrabice muito conveniente aos Governos, ao Estado e à miserável imprensa formatada no marxismo requentado das Universidades.
A fuga ao IVA em Portugal é igual à da Dinamarca, só atrás da Holanda, Finlândia e Suécia (e não é por muito), metade da francesa, à frente do UK e Alemanha, menos de metade que em Espanha e menos de um quarto que em Itália! Ora vão apanhar no cu. Fugir ao fisco é hoje um imperativo patriótico, se há escravos fiscais somos nós.


Hélder Ferreira 


sábado, 31 de janeiro de 2015

Sobre o ideal político

Portugal é um país de fracos. Portugal é um país decadente: Porque aos não indiferentes interessa mais a política dos partidos do que a própria expressão da pátria, e sucede sempre que a expressão da pátria é explorada em favor da opinião pública.

Os interesses dos partidos prejudicam sempre o interesse comum da pátria. A condição menos necessária para a força de uma nação é o ideal político. 

Almada Negreiros 1917

A grande ilusão europeia


opticalillusions

Quando veja a histeria a tomar conta dos povos, recordo-me dos filmes históricos dos anos 30 do século passado. Quando vejo povos derreados pela verga da indignidade económica e social, penso no sofrimento incomensurável de famílias inteiras. Quando vejo expressões de pura demagogia a tomar conta dos discursos de políticos, sinto que as nossas sociedades correm grandes perigos. Quando observo a bandeira da libertação ser hasteada, penso como será a nova ordem proposta pelos mercenários. Quando comprovo como nações inteiras podem ser postas ao serviço de interesses ideológicos, deixo de acreditar na pureza da Democracia. Quando testemunho a facilidade com que se arrebanha gente, penso em colunas militares. Quando sinto a prevalência do dinheiro na retórica inflamada, sei que a alma humana foi vendida. Quando registo a facilidade com que se desonra a palavra, conheço o valor de um aperto de mão. Quando nem preciso de olhar para ver, sei que já embarcaram num caminho de difícil retorno. 


O Eixo do Mal

"Já houve o eixo Lisboa-Cascais. Agora há o eixo Évora-Cascais."

Eduardo Cintra Torres