quinta-feira, 8 de maio de 2014

8 coisas que não te contaram na escola sobre a Crise de 29

O Crash da Bolsa em 29 é um evento mitológico no cenário intelectual para mostrar os perigos do capitalismo liberal: um monstro ganancioso e megalômano que acaba se destruindo.
Quem nunca ouviu de um professor de história, geografia, filosofia ou sociologia que o capitalismo só se mantém se for regulado pelo estado, senão ele mesmo se acabaria? Ou que o New Deal salvou o capitalismo? Ou ainda que a guerra pôs fim a crise?
Entretanto, essa premissa  está repleta de equívocos e mitos aceitos por muitos estudantes, seja pela passividade de acreditar nas explicações pró-estado, seja pela negação dos professores por uma bibliografia que mostre um outro olhar da crise.
Antes dos mitos e equívocos sobre a Grande Depressão, vou expor alguns termos – Reserva Fracionária e Ciclos Econômicos – que são necessários evidenciar ao leitor menos acostumado com esse assunto.
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Reservas Fracionárias

O sistema de reservas fracionárias, que vigora em todos os bancos (sejam eles americanos, europeus ou brasileiros), consiste em emprestar somente X daquilo que se tem em caixa. Por exemplo: no Brasil, quando eu faço um depósito a prazo (poupança) de 10 reais em um banco X, esse mesmo banco pode emprestar 100 reais, ou seja, 10 vezes aquilo que ele tem dentro do caixa.
Mas de onde vem esse dinheiro? Bem, o dinheiro simplesmente sai do nada. É um estilo de negócio vulgarmente conhecido como fraude, que tem o aval legal para funcionar.
Os bancos simplesmente transferem a riqueza da população para os seus cofres, inflacionando a moeda com o aumento da oferta monetária.
E o governo não faz nada quanto a isso? Sim, o governo faz. Ele delimita quantas vezes os bancos podem multiplicar aquilo que têm em caixa. No caso do governo brasileiro, como já dito no exemplo, 10 vezes aquilo que todo banco efetivamente possui.
Outro fator de controle é a taxa SELIC, que o Banco Central estipula para toda transação interbancária. Assim, quando o banco X já extrapolou o limite de quanto ele poderia emprestar (10 vezes aquilo que ele tinha), ele pede um empréstimo de outro banco – por exemplo, o banco Y -, no qual a taxa de juros é delimitada pelo Banco Central.
Assim, quando quer inflacionar a moeda para estimular o crescimento, o governo abaixa a SELIC e possibilita que os bancos criem mais moeda e reduzam as taxas de juros.

Ciclos Econômicos

Os ciclos econômicos são as variações na estrutura econômica ocasionadas por um aumento na oferta monetária. Serão divididos em 3 fases: Boom, Recessão e Estabilidade.
1º Fase – O Boom
Nessa primeira fase, temos um aumento da oferta monetária via reservas fracionárias. Tal aumento acaba abaixando a taxa de juros artificialmente (quanto mais dinheiro se tem para emprestar, menor tende a ser a taxa de juros). Lembrando: é um mecanismo artificial, já que a população não poupou para poder abaixar a taxa de juros, simplesmente criaram mais dinheiro.
O início do Boom leva a um aumento no consumo, já que é mais fácil se conseguir dinheiro. Nele ocorre também um aumento na abertura de novos negócios, principalmente aqueles que antes eram inviáveis devido à alta taxa de juros.
Essa fase leva a população a consumir mais, a empregar mais e a criar novos negócios e empregos. Consequentemente a produção das empresas aumenta e a renda da população também sobe vertiginosamente. O Boom cria uma ilusão de crescimento que acaba enganando toda a população, embriagando-os com falso crescimento.
2º Fase – A Recessão
Agora, infelizmente, a 2ª fase chega. O primeiro sinal é a alta nos preços. Consequência da inflação: quanto mais dinheiro a população possui para gastar, maior tende a ser o preço dos produtos. Logo em seguida ocorre um aperto no crédito, como consequência do aumento das taxas de juros – já que estavam se tornando insustentáveis os índices de crescimento monetário.
Com isso, a população reduz o consumo, e aqueles novos negócios de longo prazo que haviam sido abertos e que foram os que mais pegaram empréstimos, se limitam a dar calote nos bancos. Veremos um efeito dominó: quem tinha dinheiro começa a quebrar, levando toda a economia consigo.
Nessa fase ocorrem índices absurdos de desemprego, junto de crescimento baixo e alta nos preços, o que foi denominado de estagflação. A ressaca chegou.
3º Fase – A Recuperação
O que deve fazer quem oferta a moeda? Simplesmente nada, ou seja, deixar a economia se reorganizar sozinha. Assim foi feito na depressão de 1920-21, quando o governo não interveio e a depressão se curou rapidamente.
Expostos os conceitos acima posso prosseguir a demonstrar aquilo que se propõe esse texto: as 8 coisas que seus professores não lhe explicaram sobre o desenrolar da Grande Depressão e todos os mitos que cercam esse evento até hoje.

 1. Os Estados Unidos viveram dezenas de crises no século XIX;

Durante todo o século XIX – mais precisamente 1819-1820, 1839-1843, 1857-1860, 1873-1878, 1893-1897 e 1920-1921 – os Estados Unidos sofreram com seguidas expansões monetárias, depois de recessões e recuperações. Os professores não falam muito dessas recessões porque o mercado conseguiu se recuperar rapidamente delas e o governo em cada ocasião não fez, simplesmente, nada.
A crise de 1920-21 começou com um desemprego maior que a de 29, porém o presidente Warren G. Harding se recusou a dar ouvidos a um de seus secretários, Herbert Hoover, e intervir na economia. Pelo contrário, Harding confiou no mercado e em menos de um ano a crise já não existia.
A crise de 29 tinha tudo para ser mais um ciclo econômico, porém a brisa se transformou em um furacão. O culpado? O governo.
 Você pode conferir maiores detalhes sobre a crise de 20 nessa palestra de Tom Woods.

2. Coolidge Imprimiu Dinheiro Que nem um Louco;

Sanada a crise de 1920-21, Coolidge iniciou uma onda inflacionária – mais especificamente a partir de 1924. Os bancos americanos, então controlados pelo FED (Banco Central Americano), passaram a imprimir dinheiro para estimular a economia.
A Alemanha, uma das principais credoras dos EUA, estava debilitada pela I Guerra Mundial. Os banqueiros americanos e os governos europeus pediam por uma redução da taxa de juros para os bancos americanos financiarem a reconstrução europeia.
Para isso, o governo reduziu as reservas compulsórias dos bancos comerciais (quantia que os bancos devem deixar com o FED para “garantir” o poder de compra da moeda), o que estimulou a retirada de depósitos à vista (conta corrente), para depósitos à prazo (poupança). É dos depósitos a prazo (poupança) que os bancos delimitam suas reservas fracionárias. Assim, quando se aumenta a poupança, o mesmo ocorre com a quantidade de dinheiro que pode ser emitido.
Resultado: de 1921-29 a oferta de moeda aumentou em US$ 28 bilhões, um incremento de 62% num espaço de 8 anos. Isso representa uma média anual de 7,7% de aumento, um grau respeitável de inflação. O preço das hipotecas dispararam, visto que a população possuía meios de conseguir crédito fácil, expandindo, no período de 1921-29, de US$16,8 bilhões, em 1921, para US$27,1 bilhões, em 1929. A indústria também sentiu os efeitos da expansão de crédito. Os preços dos títulos emitidos por indústrias, de acordo com o índice da Standard & Poor’s, aumentou de 59,4 em junho de 1922 para 195,2 em setembro de 1929.  As ações das empresas ferroviárias aumentaram de 189,2 para 446,0, ao passo que as empresas de utilidade pública subiram de 82 para 375,1.
Tudo se valorizou graças à expansão monetária promovida pelo governo. Entretanto, se tornou impossível manter a euforia no mercado e a bolha estourou. Quando todos correram para vender suas ações em 24 de outubro de 1929 viram que elas já não valiam mais nada.
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3. O Pré-New Deal de Hoover;

Hoover comumente é tido como um presidente pró-mercado, equivocadamente. Além de sempre ter sido a favor de uma maior subordinação do mercado ao estado – e no governo Coolidge ter incessantemente proposto a intervenção do estado americano na economia – seu legado econômico atesta contra essa afirmação.
O presidente Hoover promoveu um pré-New Deal com aumento dos gastos públicos e sufocamento de uma instável classe empresarial.
Sob a influência da “nova economia”, que preconizava o planejamento central, o presidente incitou empresários a não cortarem os preços e a não reduzirem salários. Particularmente, Hoover estipulou que eles aumentassem as despesas com capital, aumentassem os salários e intensificassem os outros gastos, tudo sob a crença de que isso estaria mantendo o poder de compra.
Não fosse suficiente, Hoover embarcou numa política de déficits orçamentários e apelou aos governos locais para que estes se endividassem ainda mais e gastassem seus empréstimos em obras públicas. Por meio da Comissão da Agricultura, que Hoover havia organizado no segundo semestre de 1929, o governo federal tentou incansavelmente sustentar os preços do trigo, do algodão e de outros produtos agrícolas. A tradição do velho Partido Republicano, que defendia a restrição de importações, foi invocada com afinco.
A tarifa Smoot-Hawley, aprovada em junho de 1930, elevou as tarifas de importação a níveis sem precedentes, o que praticamente fechou as fronteiras dos EUA para os produtos estrangeiros.  De acordo com a maioria dos historiadores econômicos, esta foi a loucura suprema de todo o período que vai de 1920 a 1933, e início da real depressão.
A tarifa Smoot-Hawley conseguiu enfraquecer ainda mais a indústria norte-americana, impedindo a importação. Como resposta, outros países também adotaram medidas protecionistas que acabariam prejudicando as exportações americanas e levando milhares de agricultores à falência: as exportações americanas caíram de US$5,5 bilhões em 1929 para US$1,7 bilhão em 1932.  A agricultura americana habitualmente exportava mais de 20% de seu trigo, 55% de seu algodão, 40% de seu tabaco e de sua banha de porco, e vários outros produtos. Quando o comércio internacional foi interrompido, a agricultura americana desmoronou.
Os bancos rurais dependiam diretamente daqueles agricultores que foram à falência. Após a falência dos agricultores mais de 2 mil bancos rurais fecharam as portas intensificando a crise bancária. A crise se agravou pela Europa, fazendo com que os bancos americanos que haviam emprestado dinheiro a juros baixos para países europeus – ainda no governo Coolidge – vissem seus devedores darem calote, enfraquecendo ainda mais o setor bancário.
Até o começo das medidas intervencionistas, a taxa de desemprego não havia ultrapassado os dois dígitos. A partir de 1931, o desemprego se tornou epidêmico, afetando 8 milhões de americanos. Mesmo com o governo subsidiando dezenas de obras públicas e aumentado progressivamente seu gasto, no ano seguinte, 1932, o imposto de renda seria duplado. Com o aumento de uma série de impostos, o chamado Renevue Act, para manter seus altos déficits públicos, o governo contribuiria ainda mais com o desemprego, atingindo 12,4 milhões de americanos.

 4. O New Deal Só Piorou a Crise

Se o pré-New Deal de Hoover só prolongou e piorou a crise de 29, o New Deal de Keynes e Roosevelt foi uma versão intensificada das presepadas protagonizadas por Hoover.
Roosevelt primeiro tinha que seguir seu guru Keynes. Para isso, o presidente quis estimular a demanda agregada da economia emitindo mais dinheiro. Roosevelt desvalorizou de todas as formas o dólar, tanto aumentando a quantidade, quanto confiscando o ouro que lastreava a moeda. O resultado foi que em menos de 100 dias o dólar já havia sido desvalorizado em 40%.
O presidente então conseguiu que o Congresso aprovasse o NIRA (National Industry Recovey Act), que daria origem ao NRA (National Recovery Administration), visando cartelizar o mercado estabelecendo controle de preços, salários, horas e condições de trabalho. O NRA introduziu um salário mínimo e acabou com o trabalho adolescente – tudo isso visando aumentar o poder de compra da população.
Porém, o aumento dos custos de produção advindos do NRA, “surpreendentemente” aumentaram o desemprego para o patamar mais alto da crise, quando cerca de 13 milhões de pessoas se encontravam no desemprego.
Para compensar o estrago feito por Hoover com os agricultores e os bancos agrícolas, Roosevelt conseguiu aprovar o AAA (First Agricultural Adjustement). A pretensão do AAA era aumentar a renda agrícola por meio de uma redução da área plantada ou da destruição de safras, pagando aos agricultores para não plantarem nada, e da organização de acordos de mercado para melhorar a distribuição.
De onde sairia os subsídios para manter o AAA com os déficits públicos estourados? De um imposto sobre processamento de produtos que sairia do fragilizado setor industrial.
Em 1933, com o NRA tabelando um série de preços e o AAA sugando os recursos da indústria, que repassava para os agricultores não produzirem nada, a economia sentiu os efeitos das desastrosas medidas. Em menos de um ano, segundo o próprio FED, houve uma redução industrial de 28%.
Vendo os fracassos do NRA e do AAA, com um orçamento anual de US$ 3 bilhões, Roosevelt decidiu gastar ainda mais. Em 1934, o presidente americano prometeu um gasto de US$10 bilhões. Os impostos sobre renda e propriedade subiram em 1934-35 enfraquecendo novamente a indústria.
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5. Momentos de Lucidez

As abominações do NRA e do AAA acabaram assassinadas pela Suprema Corte Americana, em 1935 e 1936. O resultado foi um declínio do desemprego.
Note o leitor que muitos professores dizem que o New Deal amenizou a crise ou mesmo que a curou, mas foi com o fim de seus carros chefes que o desemprego pode ser reduzido.
Com o fim do NRA os preços se reajustaram, já no fim do AAA os impostos sob a indústria foram reduzidos e os agricultores foram forçados a voltar a produzir. Em 1935, o desemprego caiu para 9,5 milhões, ou 18,4% da força de trabalho, e em 1936 caiu para apenas 7,6 milhões, ou 14,5%.

6. Parecia Que Ia Melhorar, Mas…

Em resposta ao fim do NRA, Roosevelt conseguiu instaurar o Wagner Act, ainda em 1935, que dava amplos poderes aos sindicatos para julgar tudo aquilo que fosse “desleal” à classe trabalhadora americana.
Fosse por meio de ameaças, boicotes, greves, confisco de instalações e violência aberta cometida sob inviolabilidade jurídica, o plano coagiu diversos trabalhadores a se tornarem membros. O resultado doWagner Act foi um desemprego de 10 milhões de trabalhadores em 1938, próximo ao auge da crise.
Além do Wagner Act, ainda houve o imposto sobre Lucros Não Distribuídos, de 1936, que além de redistribuir a riqueza alheia também incidia sobre a produção industrial.
Em 1938, foi publicado o Decreto Sobre Salários e as Horas. Além de reduzir as horas de trabalho para 40 horas semanais, também forçou aumento de 50% em todos os salários.
Resultado: a partir de 1937 o desemprego voltou a subir exponencialmente seguido de um desemprego de 10 milhões de pessoas.
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7. Sim Foi A Guerra Que Tirou Os EUA Da Crise;

Em 1941, a base de Pearl Harbor foi atacada pelo Japão. Os EUA entraram na II Guerra Mundial. Os livros do MEC e muitos professores gostam de colocar que foi o aumento dos gastos com material bélico – incentivando a demanda agregada – o responsável por aumentar o número de empregos proporcionados pela grande crise.
Entretanto, o governo americano não vinha aumentando progressivamente os gastos públicos e emitindo dinheiro e mesmo assim, como vimos acima, só conseguiu prolongar a crise. Por que logo após quase 10 anos as teorias de Keynes surtiram o efeito desejado?
Se analisarmos a fundo, os EUA exportaram para a II Guerra Mundial cerca de 10 milhões de homens saudáveis, que faziam parte da população economicamente ativa. Além disso, em 1940 houve um abandono das políticas do New Deal e, comicamente, coincidiu com a recuperação econômica.
A II Guerra foi, sim, quem pôs fim à crise de 29, não pelo aumento dos gastos públicos, mas, sim, por um abandono das políticas do New Deal e da exportação de homens para a guerra.

8. Os 7 Itens Acima Mostram

A crise de 29 foi ocasionada por culpa, exclusivamente, do estado e do sistema de reservas fracionárias que permitiram aos políticos emitirem dinheiro de forma quase pornográfica. O liberalismo econômico ficou como o grande culpado da Grande Depressão, porém basta analisarmos os itens acima para notarmos a impressão digital do governo americano em todas as partes da crise, seja na sua gênese, seja no seu prolongamento.
O keynesianismo, com seus aumentos de gastos públicos e a impressão descontrolada de dinheiro, foi uma afronta à inteligência humana e até hoje posa com prestígio como salvador do capitalismo mundial.
Aumentar os custos para a produção industrial e a inflação só resultará em desemprego e perda progressiva do poder de compra da moeda. A lógica e os fatos listados acima estão aí para provar isso.

publicado aqui

4 comentários:

majoMo disse...

Muito interessante artigo.

Óptimo para não se ir pelas habituais trivialidades e atoardas que se ensinam nas Faculdades de Economia pela catedratice predominante.

taawaciclos disse...

PARA NÃO VARIAR!

Para não variar falta sempre nestes textos escrever os nomes das Famílias que estiverem efectivamente por detrás da dita "Crise"...

mas pronto... Para quem é estória da carochinha basta!

Linha! Siga para Bingo...

E VIVAM AS OLIGARQUIAS!

Nemo disse...

A forma como explica as fases do ciclo económico assume implicitamente que o ponto de partida é o do PIB potencial e que este está estático no tempo. Só dessa forma, os agentes económicos são surpreendidos pela inflação e existe um aumento súbito das taxas de juro. Se utilizar este enquadramento num modelo AD-AS básico, chegará às mesmas conclusões da teoria austríaca.

Diogo disse...

Que estória tão mal contada...